Greve da PM: pequenas reflexões sem genuflexões

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Historicamente a PM, como outras partes do aparelho repressivo do Estado, foi e é usada contra trabalhadores em greve, ocupações legítimas de terras improdutivas, latifúndios, prédios e terrenos usados por especuladores etc. É usada contra todo tipo de manifestação que confronte o status quo desde estudantes que querem passe livre no transporte coletivo até manifestantes que pregaram o Fora FHC e Fora Lula. As brutais cenas de espancamento de educadores na Assembleia Legislativa do Ceará e o covarde assassinato do garoto Bruce Cristian ainda devem estar bem frescos na memória de muitos.
A cultura da violência, da arbitrariedade e da impunidade é parte entranhada da vivência de muitos policiais, assim como o é a extorsão e a corrupção. Isso não significa que não existam policiais honestos que buscam agir corretamente, o que atualmente deve ser ainda mais difícil, dada a situação de crise e os chefes que os comandam.
O problema da violência na sociedade hoje é estrutural. Não se resolve com PM, PC, PF, Exército e nem Marines. Só resolve mudando as relações sociais, acabando com o capitalismo. É claro que a coisa piora quando se vive em um estado e em uma cidade repleta de pobres e miseráveis e tomada pelo crack. Aí, qualquer um com um celular, uma carteira, um carro ou uma moto é um alvo 24 horas por dia. Ainda mais quando todos sabem que “uzomi” estão em greve.
A greve da PM foi uma greve meramente corporativa. Em nenhum momento fez outro tipo qualquer de reivindicação senão aquelas de estrito interesse da categoria. Foi importante porque pôs o rei a nu. Mostrou o quão inepto, covarde e frágil é o atual governado(r). Fez clamar aos céus os editorialistas dos jornais, porta-vozes dos mandatários e de seus interesses. Disseram que isso é inaceitável e blablabla. Um deles inclusive começou citando o fim do mundo. Hilário. No dia 3, não foram só os pobres da periferia que foram assaltados. O deputado que praticava cooper na Praia de Iracema, crendo-se protegido pelo Exército, Força Nacional ou pelos céus, também teve sua cota. No dia 3, percebemos o quão frágil é a ordem estabelecida e como a barbárie é nossa vizinha de porta.
A capacidade de rebelar-se dos PMs mostra que nem todos aceitam sempŕe cantar “marcha soldado cabeça de papel...”. Tenho esperanças de que, como a greve é uma escola, tenham aprendido outras canções, outros ritmos. Esperemos que nas greves de outras categorias, ao menos pensem antes de descer o porrete. Ordens são ordens. Mas, ordens injustas podem e devem ser desobedecidas.
O comandante da PM, Werisleik Matias, buscou reduzir o problema à semântica, ao dicionário. Disse que no vocabulário da PM não havia a palavra greve. E agora? A uma hora dessas, ele deveria estar conjugando o verbo renunciar, assim como o governador e todo o resto. Isso, por um padrão imposto por eles mesmos. Ainda não tinha nascido em 1964, mas creio que exército nas ruas é coisa de ditador. Não só de mal administrador.
As viúvas da didadura, os babões e oportunistas civis e militares, os midiotas e carreiristas de plantão, já encontraram um novo líder e salvador da pátria: o Capitão Wagner. Falam em elegê-lo deputado, prefeito e quem sabe governador. E, pelo que vi na mídia, o Capitão gosta. Não tem o passado triste do Tenente Cel. Horácio Gondim, esbirro da ditadura, ex-membro da récua de torturadores do DOI-CODI e candidato caricato. Mas, pelo que entendi, será mais um a usar a imagem do xerifão que vai moralizar tudo. Se isso continua e o mesmo for eleito, poderá ser ele a ter de se esconder e calar na próxima greve da PM, pois esta não foi a primeira e nem será a última. E com a intensificação da crise, haverá uma necessidade cada vez maior de manter a tropa sob disciplina férrea. E não esqueçamos que os policiais civis continuam sua paralisação.
A esquerdalha, quando não deu mais para dissimular, assumiu seu papel. O “porta-voz” das favelas disse que será necessário uns bifes de carne de soldado para que a PM recupere a “credibilidade e a confiança”. A central sindical pelega ofereceu-se para mediar as negociações quando a greve já estava acabando. O deputado governista, governoso e cambebista juramentado disse que o governador não merecia passar por isso e que a greve teve interesse político: havia um suplente de deputado envolvido.
Enfim, esperemos (e lutemos) para que nem tudo continue como dantes no quartel de abrantes.
Haroldo Barbosa

Jornalista

 
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